
Crise na Marabraz leva a atrasos de salários, dívidas com fornecedores e fechamento de lojas
Rede varejista também sofre com falta de estoque e tem dificuldade de entregas; procurada, empresa diz estar recebendo aporte financeiro e que acertará passivos até primeira quinzena de janeiro
Em dificuldades há pelo menos quatro anos, a Lojas Marabraz vive um Natal magro. Sem pagar salários a seus funcionários há dois meses, a rede varejista se comprometeu a quitar os atrasados e recolher o FGTS descontado dos trabalhadores até dia 31. Também tem fechado lojas e enfrenta reclamações por não entregar produtos, não ter estoques e não fazer estorno de itens não entregues. Só no Reclame Aqui são quase 6 mil postagens. Fornecedores também processam a empresa na Justiça.
Procurada, a Marabraz diz atravessar um período de reestruturação sob sigilo judicial. Em comunicado, Nasser Fares, sócio da empresa, afirma que os “passivos existentes serão regularizados até a primeira quinzena de janeiro, sejam com nossos fornecedores, terceirizados, clientes e colaboradores. Além disso, as lojas temporariamente fechadas para readequações e troca de mostruário voltarão a operar em breve”
Em protesto à situação, foi feita uma assembleia no centro de distribuição da empresa, no dia 11, em Franco da Rocha, na grande São Paulo. “A Marabraz se comprometeu a fazer um pagamento no dia 19 e a saldar toda a dívida com os trabalhadores até dia 31″, disse Ricardo Patah, presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo. “Algumas pessoas nos disseram que já receberam a primeira parcela, mas esperamos os demonstrativos de maneira oficial.”

Manifestação no centro de distribuição da Marabraz, em Franco da Rocha / Foto: DIVULGAÇÃO/SINDICATO DOS COMERCIÁRIOS DE SÃO PAULO Foto: DIVULGAÇÃO/SINDICATO DOS COMERCIÁRIOS DE SÃO PAULO
De acordo com ele, a Marabraz, que já chegou a ter mais de mil trabalhadores, tem hoje cerca de 200 funcionários. Estão fechadas lojas em Santos, São Vicente e algumas em São Paulo e outras cidades como Cotia e Campinas. “A empresa teve um episódio de atraso mais cedo este ano e acertou os pagamentos”, diz Patah. “Esperamos que eles consigam honrar novamente o compromisso porque temos um bom relacionamento e já vivemos muitas situações difíceis no varejo, nos últimos anos.”
Briga familiar
Apesar do acirramento recente da crise, as dificuldades da Marabraz vêm de longa data. Com o objetivo de “blindar” o patrimônio contra dívidas fiscais das décadas de 90 e 2000, os patriarcas (Jamel e Nasser) transferiram parte de seu patrimônio para a holding LP Administradora de Bens e, posteriormente, para os filhos (a “nova geração”, incluindo Abdul Fares), em 2011.
Esse foi o argumento assumido pelos patriarcas na Justiça para anular, posteriormente, a doação aos herdeiros. O objetivo era provar que se tratava de um negócio fiduciário ou simulado. Segundo a nova geração, porém, a transferência das cotas da LP Administradora a eles sempre foi válida.
Em comunicado, a LP Administradora, controlada e gerida pelos sócios da terceira geração da família Fares, diz que a validade da transferência de controle da empresa para os seus atuais proprietários (leia também a nota abaixo).
A estimativa é que o patrimônio era avaliado em R$ 5 bilhões, sendo formado principalmente por imóveis. Uma investigação da Receita Federal de 2015 apontou, baseada em dados anteriores à doação, esquema de sonegação fiscal, confusão patrimonial e dissolução irregular de sociedades para blindar o patrimônio contra cobrança de impostos devidos.
Logo após a pandemia, em 2022, os pais decidiram retomar as cotas da LP para si, com a alegação de que os herdeiros passaram a adotar um estilo de vida “nababesco”, consumindo o patrimônio da empresa com retiradas milionárias, além de haver desavenças familiares sobre casamentos e a gestão profissional da empresa.
No início do ano passado, o herdeiro Abdul Fares (conhecido como o noivo da atriz Marina Ruy Barbosa) entrou com uma ação judicial para interditar o próprio pai, Jamel, alegando problemas de saúde mental e incapacidade de gerir bens.
Após idas e vindas na Justiça, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) manteve, em maio deste ano, os herdeiros na administração da empresa, mas sob vigilância para evitar o esvaziamento de ativos. O tribunal entendeu, em decisão em novembro, que o controle da LP é dos herdeiros, uma vez que os pais não podem usar uma fraude que eles mesmos planejaram (contra o Fisco) para benefício próprio após o desentendimento familiar. Juridicamente, “a ninguém é dado se beneficiar da própria torpeza”.
Além disso, segundo a decisão judicial, o cancelamento da doação das quotas criaria insegurança jurídica após 14 anos, por conta do impacto em centenas de contratos e operações celebrados pela holding sob a gestão atual dos filhos.
Em setembro, a Marabraz e a LP Administradora de Bens firmaram acordo com a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN). O grupo negocia o pagamento de centenas de débitos inscritos em dívida ativa para evitar leilões de seus imóveis e garantir a sobrevivência da operação.
Hoje, os herdeiros estão com a LP Administradora enquanto os patriarcas são os gestores da operação de varejo, que se tornaram negócios completamente independentes.
Leia abaixo a nota de Nasser Fares
“Há mais de cinco décadas, a rede de lojas Marabraz vem construindo sua trajetória baseada em um valor inegociável: o respeito e a dedicação ao seu bem mais precioso — o cliente.
Hoje, a empresa atravessa um período de reestruturação envolvendo os irmãos Nasser Fares e Jamel Fares, fundadores da marca. Trata-se de um processo que segue sob análise judicial e, por essa razão, detalhes permanecem sob sigilo até que todas as etapas legais sejam concluídas.
Infelizmente essa disputa judicial acabou afetando a operação das lojas Marabraz, onde a empresa patrimonial sempre pertenceu aos irmãos e onde a empresa patrimonial sempre foi o braço financeiro da Marabraz.
Foi a Marabraz que adquiriu todos os imóveis existentes, onde foi transferido para os sobrinhos e essa disputa judicial não tem data para acabar.
Mesmo diante desse cenário, a Marabraz reafirma com firmeza e total transparência o compromisso de honrar sua história e valorizar colaboradores, clientes, parceiros e fornecedores, trabalhando de forma incansável para solucionar todas as pendências com agilidade, responsabilidade e respeito. Todos os passivos existentes serão regularizados até a primeira quinzena de janeiro, seja os nossos fornecedores, terceirizados, clientes e colaboradores. Além disso, as lojas temporariamente fechadas para readequações e troca de mostruário voltarão a operar em breve.
Estamos recebendo aporte financeiro para sanear a empresa e quitar todos os passivos existentes é de altíssima prioridade.
Mais do que superar um momento desafiador, a Marabraz está empenhada em preservar seu legado de mais de 50 anos no varejo brasileiro, construído com ética, trabalho e confiança.
Mesmo diante dos desafios deste momento, a empresa segue empenhada, de forma responsável e contínua, na mobilização dos recursos necessários para regularizar todas as pendências junto a consumidores e colaboradores no menor prazo possível.”
Herdeiros dizem que contrato é válido
A nota da LP Administradora, por sua vez, diz que os atuais proprietários “adquiriram o controle da empresa há mais de 14 anos, em contrato firmado com os antigos controladores e que Nasser se arrependeu desse contrato e tentou, com base em mentiras, desfazer o negócio em ação judicial, para pegar para si uma empresa sólida, mesmo tendo os sócios da Marabraz sua empresa patrimonial, independente.”
De acordo com eles, “o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo reconheceu por unanimidade (5×0), a validade da transferência de controle da empresa para os seus atuais proprietários. O negócio foi perfeitamente regular e está convalidado enfaticamente pelo Poder Judiciário.
Os proprietários da LP dizem ainda “administrar a empresa sem qualquer limitação ou supervisão judicial e que é uma companhia imobiliária sólida e independente, com gestão profissionalizada. Os resultados positivos e a expansão dos negócios sob a administração da terceira geração foram amplamente demonstrados.”
Segundo eles ainda, “a crise enfrentada pela Marabraz nada tem a ver com a LP ou seus negócios – até porque são empresas independentes. Ela é resultado da gestão imprudente dos seus sócios, inclusive de descaso proposital em não recorrer a medidas legais de reestruturação, nem tomar qualquer medida para fazer frente à situação da empresa.
Clientes de Ferraz de Vasconcelos relatam atrasos e dificuldade de reembolso em compras na Marabraz
Moradores de Ferraz de Vasconcelos, na Região Metropolitana de São Paulo, têm relatado atrasos na entrega de móveis e dificuldades para obter reembolso em compras realizadas na rede Marabraz, uma das maiores varejistas do setor no país. Segundo consumidores ouvidos pela reportagem, há casos em que nem o produto foi entregue, nem o valor pago foi devolvido, mesmo após a desistência formal da compra. Dados do Procon-SP apontam que a Marabraz liderou o ranking de reclamações entre lojas de móveis em 2025, acumulando 4.104 registros ao longo do ano. As queixas envolvem principalmente descumprimento de prazos, falta de atendimento eficiente e problemas na devolução de valores pagos.
Em Ferraz de Vasconcelos, a situação é agravada pelo fato de a loja física permanecer fechada, segundo relatos de clientes, sem avisos claros ou canais locais de atendimento. A ausência de informações oficiais aumenta a apreensão dos consumidores, que afirmam encontrar dificuldades para obter respostas por meio de centrais telefônicas ou canais digitais da empresa. Fontes ligadas ao setor informam que a Marabraz atravessa um processo de reestruturação interna, envolvendo a família fundadora, atualmente sob análise judicial. Até o momento, a empresa não apresentou prazos oficiais para a regularização das entregas pendentes nem para a conclusão dos reembolsos solicitados pelos clientes.
Consumidores relatam prejuízos financeiros significativos, especialmente nos casos de compras parceladas, em que as cobranças continuam sendo efetuadas mesmo sem a entrega dos móveis. “Além da frustração, fica o medo de não recuperar o dinheiro”, afirmou um cliente que preferiu não se identificar. Especialistas em direito do consumidor alertam que, de acordo com o Código de Defesa do Consumidor (CDC), o cliente tem direito à entrega no prazo acordado ou à devolução integral dos valores pagos, inclusive em casos de desistência dentro das regras legais. O Procon orienta que consumidores afetados formalizem reclamações, guardem comprovantes e, se necessário, busquem medidas judiciais.
A reportagem da NOVA FOLHA SP procurou a Marabraz para esclarecimentos, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

Loja de Ferraz de Vasconcelos, fechada a mais de 1 (um) mês, clientes não receberam os móveis, e funcionários estão com salários atrasados a 2 meses , sindicato da categoria ja notificou o Ministério Público .
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